sábado, 30 de julho de 2011

Palestras:“Alimentação e saúde oral” e “Património/Tradição Oral”

Realizaram-se no dia 16 de Julho mais duas actividades do Centro Novas Oportunidades, propostas pela profissional de RVC, Dr.ª Olga Filipe, no plano Anual de Actividades da escola. Desta feita, foi a itinerância do Colmeal da Torre a contemplada com duas palestras que em muito contribuíram para que a localidade sentisse o empenho desta equipa na melhoria e desenvolvimento das competências dos adultos que estiveram, e ainda estão, em processo de reconhecimento, validação e certificação de competências.













A tarde começou com uma palestra subordinada ao tema “Alimentação e saúde oral”, dinamizada pela Dr.ª Elsa Silva, nutricionista em exercício no Centro de Saúde da Covilhã.























Tratou-se de um momento de partilha de informações muito úteis, que alguns recordaram como temas desenvolvidos nos seus portefólios reflexivos de aprendizagem e outros aproveitaram como fonte de informação e de conhecimento para o trabalho que ainda está em curso. A alimentação correcta e adequada, bem como uma boa higiene oral foram o mote para um debate profícuo e uma partilha de vivências e experiências que, inevitavelmente, constituem uma mais-valia no processo de crescimento formativo do público que ali se encontrava.
























De seguida, ainda no mesmo local e com uma plateia motivada, foi apresentada mais uma acção cujo tema foi bastante caro, versando agora o “Património/Tradição Oral”, através da voz da formadora de Cultura, Língua e Comunicação, Dr.ª Maria da Luz Coelho.


A cultura, a tradição e o património oral, que passa de boca em boca e de geração em geração, proporcionou, agora, uma conversa animada em que cada um apresentava o que de mais genuíno existe nas suas terras e que constitui a identidade de um povo. As lendas, as músicas, os costumes, as festas religiosas com os seus padroeiros, os contos populares de cada localidade ali presente, foram contadas pela boca daqueles que mais respeitam o património da terra, os seus habitantes, e partilhadas num momento de convívio e recordação.





































Foi, sem dúvida, uma tarde muito agradável, sentida por todos como um momento a repetir noutras itinerâncias no próximo ano lectivo.

Esteve presente a Coordenadora do Centro Novas Oportunidades, Dr.ª Rosa Macedo, que se congratulou com o sucesso das actividades e a adesão dos adultos a tudo o que o centro lhes proporciona.










A Formadora de CLC, Maria da Luz Coelho


NOTA: A conselho da Nutricionista Dr.ª Elsa Silva indicamos para consulta os seguintes links:




segunda-feira, 25 de julho de 2011

Exposição: Espaço e Tempo de Uma Vida; as experiências em Arte




A nossa escola e o Centro Novas Oportunidades já nos habituaram a receber um conjunto de actividades que, em muito, contribuem para o enriquecimento da comunidade educativa. Ao longo do ano lectivo foram várias as ofertas neste âmbito, cujo resultado correspondeu às mais elevadas expectativas que pudessem ter sido criadas. Chegados ao final de mais o ano lectivo, o nosso Centro não podia deixar passar o momento sem, com chave de ouro, encerrar as suas actividades de forma a que todos fossem envolvidos.
Assim, a equipa técnico-pedagógica, representada pela sua coordenadora, Drª Rosa Macedo, organizou uma exposição no centro comercial Serra Shopping, levada a cabo entre os dias 14 e 17 de Julho.
Os seus objectivos primordiais centravam-se na vontade de todos em dar a conhecer o que de mais belo e interessante passa pelas nossas vidas, ou seja, a dos nossos adultos. Neste sentido, surgiu a vontade de mostrar fragmentos das vidas pessoais e/ou profissionais de muitos daqueles que tiveram meses de partilha de uma História de Vida, contada na primeira pessoa. Durante algum tempo, profissionais, formadores e demais equipa empenharam-se em recolher retalhos destas vidas tão ricas em experiência e sabedoria, para exibirem numa mostra que muito orgulhou a todos os que trabalham neste centro. Com vivências tão variadas, não foi difícil juntar um vasto conjunto de elementos que espelharam a dedicação de quem os fez. Da pintura à escultura, da mecânica aos têxteis e bordados, muitos foram os trabalhos visitados e apreciados por inúmeras pessoas ao longo destes quatro dias.
O público, exigente, como convém, foi unânime em reconhecer o sucesso desta empreitada. Os elogios vieram de toda a parte, mas são para eles, os nossos adultos, pois foi das suas mãos e vontade de partilhar, que sempre os caracterizou, que foi possível alcançar o sucesso de uma actividade tão ambiciosa.
A todos, o nosso muito obrigada pela entrega que nos mostraram e pela dedicação com que sempre pautaram o processo em estiveram envolvidos.

“O que deixamos para trás não é o que é gravado em monumentos de pedra, mas o que é tecido nas vidas de outros”

Péricles

A formadora de CLC, Maria da Luz Coelho



quarta-feira, 13 de julho de 2011

Testemunho de Carla Pais Pedro


“UM PEQUENO PASSO NA MINHA VIDA, UM PASSO GIGANTE PARA A MINHA VIDA PROFISSIONAL”


A escolha do título tem a ver com o meu estado de espírito que me levou a decidir dar o passo de me inscrever nas Novas Oportunidades.
Este processo representou um grande desafio que pode modificar a minha vida profissional originando um passo gigante na minha vida pessoal e familiar.
Já há alguns anos que pretendia acabar os meus estudos secundários. Devido à falta de motivação e também de alguns obstáculos na minha vida pessoal como o meu casamento e o nascimento dos meus filhos, não me permitiu que o fizesse em tempo oportuno.
Ao dar esse passo, em me inscrever num CNO, para ter um reconhecimento, validação e certificação das minhas competências, pensei em abrir um caminho, uma motivação e um sonho antigo, encontrando um método de estudo, para organizar o meu portefólio e atingir o 12º ano de escolaridade.
Toda esta motivação tinha como meta conseguir alcançar um sonho da minha vida qualificar-me com estudos de nível superior em contabilidade e auditoria e ser TOC, o que me beneficia pessoalmente e poderá promover no contexto da minha vida profissional.

Ao longo de vários meses empenhei-me em fazer o trabalho que me fora proposto, com uma grande ajuda, bastante preciosa, sempre pronta a esclarecer qualquer dúvida que me surgisse, a Dr.ª Olga Filipe. A quem agradeço muito não apenas por ser uma excelente profissional, mas também por ser, um Ser Humano Excepcional, uma grande AMIGA.
No dia 13 de Junho de 2011, vi o meu trabalho ser reconhecido, perante o júri, na Escola Campos Melo, da Covilhã.

 Foi uma experiência, bastante agradável que nunca irei esquecer e aqui deixo os meus agradecimentos, a todo o corpo docente e à Escola Campos Melo, por ser uma escola excepcional.
Quero referir que foi uma rampa de lançamento, ver as minhas competências reconhecidas, porque fiz a inscrição para a Universidade, para o curso de Contabilidade e Auditoria, sei que vão ser três anos difíceis, mas a vida é para a irmos conquistando aos poucos.
Um bem-haja.

Carla Garrido Pais Pedro
(Cascais)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

EFA - Saber Aprender, Saber Fazer…


Tiago Santos – Curso EFA C 1I

O curso de Educação e Formação de Adultos (EFA) tem, antes de mais, uma conotação muito importante na qual se baseia pois é uma formação de e para adultos. É crucial perceber este ponto para que, posteriormente, possamos caracterizá-lo melhor.

Sendo um curso para adultos, exige, à partida, uma maturidade que permita a assimilação de conteúdos que são, principalmente, de teor reflexivo, exigindo assim ao formando uma boa capacidade de estruturação de ideias e de, acima de tudo, pensar por si próprio. Podemos desta forma assumir que é necessário que o formando esteja dotado de forte autonomia intelectual.

Por outro lado, não só é um curso para adultos, mas também um curso de formação de adultos. Isto é, é preciso ser adulto para o frequentar, mas frequenta-se para formar adultos. Na medida em que cada formando, aproveitando ao máximo as aprendizagens, deverá finalizá-lo com um maior sentido de responsabilidade, maturidade e, obviamente, com mais e melhores competências para a sua vida pessoal e profissional.

Sendo um método de aprendizagem e de ensino diferente e alternativo ao comum, também as suas temáticas e conteúdos o são. Mas, mais importante e significativo é, a meu ver, a forma como as mesmas são abordadas. Num sentido geral, esta abordagem divide-se, principalmente, em duas vertentes. Primeiro, os temas são abordados em função da necessidade actual e real de os compreender, face a uma vida adulta. Por exemplo, os direitos e deveres, num contexto pessoal, profissional e comunitário, a que cada um de nós está obrigado enquanto cidadão. Em segundo, e em último lugar, estes são abordados numa perspectiva profissional e crítica por parte do formando. Profissional, no sentido de os aplicar a situações de trabalho como seja, a título de exemplo, a análise do código do trabalho e a posterior contextualização através de situações hipotéticas. De reflexão crítica, no sentido de incluir o formando no seu processo de formação, dando-lhe a oportunidade de declarar o seu juízo fundamentado em relação ao conteúdo.

Nas áreas de competência são abordadas várias temáticas que vão desde ciências controversas até processos de mudança na sociedade, passando também por temas mais concretos como a poluição, o aquecimento global e a sustentabilidade ambiental que são, sem margem de dúvida, essenciais para uma interacção correcta nos problemas actuais.

É, por isso, fácil de entender que o curso EFA tem como alvo a formação em dois grandes prismas, o pessoal e o profissional. Ao nível pessoal, este revela ser bastante rico. O método de trabalho exige-nos um empenho intensivo e constante, o que por sua vez exige um nível de responsabilidade maior, transmitindo desta forma uma pequena imagem da realidade quotidiana, adulta e responsável, num contexto de cidadania.

Ao nível profissional é, claramente, uma mais-valia, na medida em que nos incute uma melhor noção, consciencialização e prática num ambiente profissional, seja em situações de rotina ou em momentos de adversidade. Este é, na minha opinião, o principal contraste entre o curso EFA e o método de ensino regular comum, o de abordar o processo de aprendizagem de maneira mais pessoal e profissional.

Vejamos que no ensino regular é dada mais importância ao aprofundamento de conteúdos muito específicos e complexos, seja o exemplo da Matemática e da Física. Já no curso EFA, é feita uma redução dessa especificidade e um foco mais presente na contextualização dos conteúdos face à dimensão da sociedade. Diria eu, da vida social.

A meu ver, este curso torna-se bem mais benéfico e adequado ao conceito actual de aprendizagem, pois, no fundo, aprender já não é só ouvir, anotar, perceber, não esquecer e, por fim, utilizar. Na realidade em que vivemos actualmente, é também necessário aprender a aprender, e desta forma concluo e digo, com toda a confiança, que este modelo de ensino faz mais do que sentido e que, tanto eu como os meus colegas saímos vitoriosos, pois agora não só aprendemos, como sabemos aprender e sabemos fazer.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Olhares sobre a Iniciativa Novas Oportunidades

De acordo com o Plano Nacional de Emprego e Plano Tecnológico, a Iniciativa Novas Oportunidades assenta numa base clara: “o nível secundário é o objectivo de referência para a qualificação dos nossos jovens e adultos. É este hoje o patamar mínimo para dotar os cidadãos das competências essenciais à moderna economia do conhecimento em que vivemos. É este hoje o patamar mínimo para que possamos adquirir e reter, ao longo da vida, novas competências.

A estratégia da Iniciativa Novas Oportunidades tem dois pilares fundamentais. Em primeiro lugar, fazer do ensino profissionalizante de nível secundário uma verdadeira e real opção, dando Oportunidades Novas aos nossos jovens. Esta é uma resposta há muito reclamada pelo País. É a melhor resposta para os inaceitáveis níveis de insucesso e abandono escolar que ainda temos.

O segundo pilar é o de elevar a formação de base dos activos. Dar a todos aqueles que entraram na vida activa com baixos níveis de escolaridade, uma Nova Oportunidade para poderem recuperar, completar e progredir nos seus estudos. São muitos aqueles que não tiveram, enquanto jovens, a oportunidade para estudar mais e que entraram precocemente no mercado de trabalho. Atingir estes objectivos implica o desenvolvimento profundo e consistente do Sistema de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências – como forma de medir e certificar competências adquiridas em contextos não formais e informais –, a disponibilização de ofertas complementares adequadas, a construção de um exigente sistema de avaliação de qualidade que assegure a manutenção dos mais elevados padrões de exigência e, essencialmente, o forte envolvimento e compromisso dos trabalhadores e das empresas.

O sucesso da Iniciativa Novas Oportunidades exige um empenhamento profundo de todos – cidadãos, empresas e instituições – na valorização de uma cultura de aprendizagem e na sua efectivação no terreno. Será, seguramente, um caminho muito longo, duro e difícil.” ( in Plano Nacional de Emprego e Plano Tecnológico).

De acordo com um relatório da Direcção-Geral de Educação e Cultura da Comissão Europeia, disponibilizado na Internet, Portugal é um dos cinco países classificados na escala mais elevada ("High") no que respeita ao nível de desenvolvimento em matéria de validação de aprendizagens não formais e informais.

A par de Portugal, ocupam esta posição a Finlândia, a França, a Holanda e a Noruega.

A Escola Secundária Campos Melo ao longo dos 127 anos da sua existência tem revelado ser uma escola inclusiva, onde cada um encontra o percurso mais adequado ao ser perfil.

Para além do ensino regular, a ESCM oferece todas as outras ofertas formativas (CEF, C. Profissionais, CEFA, e RVCC). Ainda temos uma parceria com a ESTEBI, da qual a Escola é associada, a nível dos CET que são formações pós secundárias não superiores que atribuem nível 5 de qualificação profissional.

Para além da formação nas instalações da Escola, continuamos no Estabelecimento Prisional da Covilhã, proporcionando à população reclusa a oportunidade de melhorar as suas habilitações para uma melhor reinserção no mercado de trabalho. Ministrámos aqui cursos do ensino recorrente por unidades capitalizáveis e por módulos. Actualmente oferecemos CEFA e RVCC.

Desde a sua criação (2006), o CNO da ESCM tem vindo a consolidar o seu trabalho na sede do Centro e através de itinerâncias que vão de encontro às necessidades da população das várias freguesias dos concelhos da Covilhã, Fundão e Belmonte, contribuindo assim para a melhoria das habilitações académicas e auto - estima destas populações, que de outra forma dificilmente o conseguiriam.

Trata-se de um processo de formação que se tem revelado muito gratificante para toda a equipa pedagógica que acompanha estes adultos, que com muito agrado vêem reconhecido toda a experiência e saber acumulados ao longo da sua vida e simultaneamente revelam muito interesse na aquisição de novos conhecimentos.

O CNO da ESCM, através dos Processos de RVCC, presta um serviço de qualidade, exigência e rigor, pois para além da certificação das competências adquiridas ao longo da vida, os adultos recebem aqui muita formação ministrada pelos nossos formadores e por empresas de formação externas que connosco colaboram, nomeadamente, nas áreas das Tecnologias de Informação, Línguas Estrangeiras e Higiene e Segurança no Trabalho.

A Iniciativa Novas Oportunidades tem o mérito de fomentar a formação e a aprendizagem dos adultos ao longo da vida , contribuindo para uma melhor adaptação ao mercado de trabalho cada vez mais exigente e competitivo. Tem sido graças à disponibilidade e vontade da equipa técnico - pedagógica do CNO que com muito agrado temos levado esta Iniciativa a muitos adultos da NUT III - Cova da Beira, nomeadamente em várias Escolas, Juntas de Freguesia, Associações e Empresas.

O número de itinerâncias onde temos levado a todos os interessados, a oportunidade de elevar as competências e consequentemente as habilitações, é revelador da importância que também as entidades que connosco colaboram e a quem endereçamos o nosso agradecimento, reconhecem a esta iniciativa.

ADERES – Cortes do Meio
APPACDM – Covilhã
Associação Desportiva do Fundão (local da itinerância – Rádio Cova da Beira)
Associação Jovem Teixo – Teixoso
Beira Serra – Boidobra e Teixoso
Casa do Menino Jesus – Covilhã
Casas de Santiago – Belmonte
Centro Cultural e Recreativo de Malpique
Centro Hospitalar Cova da Beira
Centro Paroquial - Assistência e Formação – Erada
Centro Social N. Senhora dos Remédios – Paúl
Centro Social Santo Aleixo – Unhais da Serra
Consequi SA
Escola EB 2/3 de Belmonte
Escola Básica do Ferro (Junta de Freguesia do Ferro)
Escola EB 2/3 – Paúl
Escola Básica de Peraboa (Junta de Freguesia de Peraboa)
Escola EB 2/3 de S. Domingos
Escola EB 2/3 do Teixoso
Escola EB 2/3 do Tortosendo
Estabelecimento Prisional da Covilhã
Estabelecimento Prisional – Quinta de S. Miguel
Grupo Jerónimo Martins – Pingo Doce (Covilhã e Fundão)
Grupo Sonae – Continente - Covilhã
Junta de Freguesia de Aldeia do Souto
Junta de Freguesia do Canhoso
Junta de Freguesia de Colmeal da Torre
Junta de Freguesia de Maçaínhas
McDonald's – Covilhã
Rancho “ As Andorinhas de Vale Formoso”
Serra Shopping – Covilhã
Sport Lisboa e Águias do Dominguiso
Unidos Futebol Clube do Tortosendo
Vidreira Ideal – Fundão
Coordenadora Pedagógico do CNO - Maria Rosa Antunes Proença Macedo

terça-feira, 28 de junho de 2011

José Saramago

 
Texto em três Partes


Parte 1

O texto que apresento na segunda parte foi escrito quando Saramago morreu. No mês de Junho. No ano passado. É, pois, um texto antigo que agora reciclo. Porém, quando o escrevi, o meu objectivo não era homenagear Saramago, porque não aprecio coisas pomposas, e as homenagens são pomposas (espero que concordem), mas tão somente para me despedir, pois é de bom tom despedirmo-nos daqueles que partem.

Parte 2

O texto propriamente dito:

José Saramago: ponto final, parágrafo!



Peço desculpa, meu querido José Saramago, pelo excesso de pontuação que coloquei no título. E não, não pertenço ao grupo dos que acham que o senhor não sabia pontuar. Como se a Literatura fosse um manual de gramática! Pobres tolos! A Literatura é transgressão e o senhor era/é um transgressor!

A primeira obra que li de sua autoria foi "O Evangelho Segundo Jesus Cristo". Li-o às pressas - imagine, se aquilo é livro para ler desta maneira - porque queria estar minimamente informada, quando estivesse na palestra com a sua presença. Gostei do livro, claro! E gostei de o ouvir. Depois de muitas perguntas - ofendidas - quanto à temática e ao porquê de ter assim retratado Jesus, o senhor respondia, não sei se com impertinência: « Escrevi assim porque Deus quis.» Muito me ri, na dita palestra, com o seu sentido de humor. E recebi um autógrafo seu. Obrigada!

Não concluí a leitura de "O Memorial do Convento", porque o meu pai estava doente - "doença prolongada" - e não suportei o olhar de Blimunda, a observar o mais recôndito de cada um. Não queria, através do olhar dela, ver o que se passava no interior do meu pai. Li "A Caverna", "A Jangada de Pedra", "O Ensaio sobre a Lucidez" e "Todos os Nomes". O excelente "Todos os Nomes", o meu preferido! Li-o como uma história arquétipa daqueles que são solitários. É uma história cheia de algum som e alguma fúria, significando nada...

Os afazeres não me permitiram ler as suas últimas obras, bem mais curtas, mas não perdem pela demora.

Milan Kundera, em "A Arte do Romance", diz coisas extraordinárias. Evoca Husserl que falou sobre "o esquecimento do ser". Num mundo em que a Ciência se ergue toda poderosa, não há espaço para o ser, para o humano. O ser humano coisifica-se, é um instrumento do e no mundo tecnológico, científico. Onde podemos encontrar, então, o Homem? Cito:

«O romance acompanha o homem constante e fielmente desde o começo dos tempos Modernos. A "paixão de conhecer" apoderou-se então dele [do romance] para que prescrute a vida concreta do homem e a proteja contra o "esquecimento do ser" ». (1)

Ou seja, é no romance que o Homem vive, que o seu espaço de vida é iluminado. O romance situa o Homem no seu mundo, explica-lhe o mundo, dá-lhe pistas. No romance não há, porém, verdades absolutas, nem respostas. É um espaço de problematização, de incertezas, de hipóteses. E é neste contexto que a morte de José Saramago é perda grande e fundamental. Porque a sua obra, polémica, tentou desmistificar dogmas e apontar caminhos. Tentou confrontar-nos com a nossa cegueira e dar-nos um vislumbre de lucidez. Em suma, foi/é um espaço onde o Homem vive. Foi/é um contributo contra o "esquecimento do ser".



Parte 3

Passado um ano sobre a morte do escritor, o texto anterior não pretende exprimir saudade, que é um sentimento muito português (ao que consta) e muito banal, mas tão somente para dar testemunho de lembrança. É, pois, uma forma de demonstrar que não há como esquecer um romancista. E, a terminar, volto a Kundera, para o citar:

«Descobrir aquilo que só um romance pode descobrir, é a única razão de ser de um romance. O romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral. O conhecimento é a única moral do romance.» (2)

Repito: “O conhecimento é a única moral do romance”. Conhecimento: eis um critério a utilizar quando se procura um romance. E os romances de Saramago cumprem este critério? Eu acho que sim (espero que concordem).

Fim do texto.(ponto final)


(1) Kundera, Milan, A Arte do Romance, 2ª ed., Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2002, p.16


(2) Ob. cit. p. 18


Adélia Rocha